Poesia Permanente

"a forma de escrever é provisória, a poesia é permanente" Rosa Lia Dinelli

Tantas vezes vi na rua
As estradas que segui
Rumo a todas as curvas
Que me traziam aqui

Tantas vezes qual barco
Preso em correntes vividas
Por vezes me atrasando o passo
Tornando vidas sofridas

Tantas vezes fechei os olhos
Por uma não mais os abri
Pus os pés adiante na vida
Largada as correntes sem me seguir

Tantas vezes a vida passa
E agora ela se passou
Num suspiro em baixo d'água
Do oceano que agora secou

Tantas vezes abri os olhos
Agora os fecho de vez
Deixo toda a dor causada
E as correntes oxidadas

A meu avô morto.

Poesia inspirada do micro-conto "Rua da Frente"

Ei, olhe bem
Você não me conhece
Não sabe a meu respeito
Só sabe do meu rosto
E dessas linhas que me desenham
E me trazem a este ponto onde estamos

Olha, escuta aqui
Eu já te conheço
Mas não sei a seu respeito
Só sei o que você quer aqui
E o que quer saber de mim
E o que vou fazer contigo

São todos esses pontos
Demarcados neste habitat noturno
Cada um na sua dimensão

São todas essas sombras
Que me trazem noite a noite
A este lado do mundo que não é meu

Enquanto eu giro e giro
Voltando só e sempre pro mesmo lugar
E você gira e gira
Até que se encontre comigo
Podendo ficar ou ir
Sei que você vai voltar

Ei, preste atenção
Você nem sabe o meu nome (ainda)
Muito menos minha idade (ainda)
Mas eu já sei a placa do seu carro
E posso até deduzir a quilometragem
E você nunca vai saber nada de mim

Olha, só mais uma coisa
Eu nunca vou te contar minha história
Mas irá saber todas as minhas medidas
É só saber (a) preço que tenho
E vamos logo que a noite é mais criança que eu
E ambos temos nossas vidas a retomar depois.

Você não me conhece. Não sabe da minha história. Só sabe da minha face, das minhas linhas. Da minha miséria. São nessas voltas que encontro a esperança de estar a frio e ao relento pela causa que me trai todos os dias, me fazendo fiel à noite. Fiel a vocês, enquanto o tempo permitir. A minha causa pode ser qualquer uma. Pode ser a sua, a sua, a minha ou nenhuma. Mas façam o que quiser desde que o papel escreva o que tenho que viver amanhã até esta mesma hora a espera de vocês ou de outros. Sim, eu faço tudo, só não me apaixono.

Hoje caminhando rotineiramente pelas ruas dessa cidade tão climaticamente harmoniosa percebi que tenho sombra. E paradoxalmente é nela onde descubro que não sou só e onde se deposita toda a minha solitária individualidade. Era dia enquanto meus passos rápidos me guiavam à labuta. A sombra era intensa e me acompanhava copiosamente. Essas palavras são noturnas e ainda sim a luz artifical da urbanidade moderna me traz naturalmente essa companheira fiel. É aí que me faço perguntas que me trazem automaticamente respostas: e se não houver nenhuma luz? A luz se encarrega de uma ínfima sombra, ela sempre vai estar lá! E se não houver lua? A lua-nova nunca emite luz! Ela estará mais perto do que nunca, do lugar de onde sempre ela sai e de onde ao menos, por uma semana nos momentos obscuros ela retorna: a sombra estará dentro de mim.

Se a minha luz se acendesse
Ascenderiam todas as coisas
E os campos dinamitados desta terra
SE afogariam em meu acender

Duas coisas muito diferentes nesses dedos
Não teriam força ao que difere
Tudo muito parecido nesta festa
Só o vácuo e as luzes neste toque de Miguel

Nada se converte no caderno
Nem o velho, nem o novo, nem o que vai nascer
Meu últero derradeiro desritimado
Em dois passos ida e volta até acabar a página.

A vida
Não está
Nas páginas
De um jogo

A vida
Sempre está
Nas páginas
De um livro

Você mesmo escreve
As linhas dessa paisagem
Eu mesmo não sei
O andar dessa carruagem

Que me leva
Para fora
De tudo

Que é cartesiano
Passo a passo
Não combina

Eu mesmo caminho torto
De olhos bem fechados
Você que me faça abri-los
Quando chegar ao cais do porto.

Meu peito é um velho viajado
Que nunca saiu de seu metro quadrado

Minha velha alma
É um jovem sedento de vida

Meu corpo é um redento de paradoxos
Pronto para pular d'um precipício

E voar...
Até que as penas desabem
E construam meu novo castelo

Meu reino
Será de flores amarelas
Que seguem a luz da realeza

Minhas mãos são enrugadas de dedos
Que sempre tocaram todas as coisas

Meus pés de asas cortadas
Para pousar todos os sonhos no chão

Minha cabeça é uma ilha deserta
Onde posso estar sempre só

E viver...
A vida tem 360º
Onde os ponteiros um dia param

Meu relógio
Marca passo a passo dessa trilha
Que um dia cessará a viagem.

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