Poesia Permanente

"a forma de escrever é provisória, a poesia é permanente" Rosa Lia Dinelli

[Sem Título]

A menina balança a mão
E enquanto isso
O mundo dança

Dança o mundo ao reger da menina
O compasso do universo
Uma verdadeira música

Enquanto anda
Balança a mão a doce menina
E não sabe ela

Que quando não mais menina
Não mais balança a mão
Apenas, como o mundo, dança.

Chá Das Cinco Com Dalí


Sabe aquele dia
Bem no fim da tarde
Lá no passo fundo
Do meu coração

Eu olhei pro céu
Vi estrelas ao dia
Não era alucinação
Eram os meus pés no chão

Lembra do encosto duro
Da minha cadeira
Onde sempre sento para escrever
E sai os rabiscos da minha mão

Liguei o ventilador
E mirei-o ao teto
As areias dos sonhos
Voaram por meus cabelos

Façamos aquele chá de leite
Que se toma com semente de girassol
Embaixo da luz da lua
Em cima de uma serra imaginária qualquer

Respire fundo todo esse suspiro
E espirre o sonho em bambolê
Na saúde de querubim caído
Que o inverno já chegou!

Ponto Final


O ponto da frase quando molha
É semente e vira girassol
Segue todo raio de chuva
Da lágrima que não pode exprimir

O ponto da frase quando borra
É virgula e dá continuidade
Segue todo o compasso de verso
E reverso do que não se sabe

O ponto da frase quando aponta
É ponto de fim de frase
Encerrando de açoite toda uma idéia
Que não mais será frase.

O Ofício Do Crepúsculo

Pastava a cabra na relva do céu
Aparava as nuvens em formatos
Enquanto adormecia a realeza

Várias sementes vegtais adormecidas
Crescendo em vida da fertilidade
Campos e campos de todas as flores

Quando de ímpeto natural
Brotou o girassol radiante
Com seus espetos solares

Espetando todos os brotos
Da longa jornada noturna
Onde não se sabe o que se cresce

Espetou a realeza de seu sono profundo
Lembrando assim de todo o seu reinado
A fecundar os feridos desabrochados

Isto Está Acima de Tudo

É uma serra muito alta
E tudo está acima de tudo
É lá que se sente o aroma de café
E ainda sim está acima de tudo

É um campo de girassóis lá no alto
É um vento frio que acaricia o cabelo
É um sol quente que aquece o pé e o topo
E tudo está acima disto tudo.

[a dio]

A Ladeira da Misericórdia

A menina desce a ladeira
Desce a ladeira todo dia
Todo o dia a tarde, a menina
A menina no fim da tarde

No fim da tarde conta ladrilhos
Conta ladrilhos pela ladeira
Pela ladeira do começo ao fim
Chega ao fim da ladeira a menina.

Ladeira comprida
Ângulo incliniado
Desce a menina
Sem rebolado

Menina menina
Toda inocente
Desce a ladeira da
misericórdia que sente.

Delírio Na Sala de Espera do Cartório

Ela jogou o anel no meio do oceano
Bateu no fundou e criou barbatanas
Chegou a correnteza e o peixe abriu vôo
Não tinha mais espaço para tanta amplitude
Bateu numa nuvem e acordou de aliança!

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